"I supposed to be first on everybody's list"
- Jay-Z - What More Can I Say
"If you act like a bitch, nigga, then you get slapped like bitches"
- Dr. Dre - Bitch Niggaz (feat. Snoop Dog)
São Paulo e Corinthians se encontraram no estádio Cícero Pompeu de Toledo no belíssimo bairro do Morumbi, neste dia em que comemoramos a independência da nação. E num momento em que a nação precisa ser distraída de seus problemas. Da corrupção e desilusão com nosso governo, para aliviar os eufemismos.
Para aqueles que não se recordam, esse foi o jogo de volta depois do jogo do primeiro turno quatro meses atrás, no qual o São Paulo goleou o seu grande rival por 5 a 1. Depois daquele jogo, muita coisa aconteceu. O técnico Daniel Passarela saiu em desgraça do Corinthians e o interino Marcinho Bittencourt assumiu o cargo interinamente. O técnico Paulo Autuori se firmou na liderança do São Paulo e levou o time a ser campeão da Libertadores. No campeonato brasileiro, o Corinthians passou a figurar como amplo favorito e emplacou uma série de vitórias, jogando com um ataque implacável para compensar a terceira pior defesa do campeonato. O São Paulo caiu sem pára-quedas na tabela e passou a conviver com o fantasma do rebaixamento. Mas nas ultimas rodadas, a coisa parece estar se invertendo. Enquanto o São Paulo, mesmo assombrado por lesões e suspensões, vem esboçando uma reação e mostrando que seu flerte com a segundona era realmente só um flerte, o Corinthians está perdendo espaço na ponta. Parece ter estacionado com 40 pontos e está em quarto lugar.
Então como é de se esperar, o jogo foi aguardado com grande antecipação e tensão. Torcedores de ambos os times pareciam não poder agüentar mais a espera (os times não jogavam desde quarta-feira passada). Quem não é São Paulino ou Corinthiano não consegue entender totalmente o que este confronto representa. A atmosfera é hostil e cativante ao mesmo tempo.
Quando os times entraram em campo às 4:00 da tarde, tudo parecia posto em seu devido lugar para um grande show. Uma partida acirrada e disputada a cada fibra de grama. O São Paulo entrou em campo mais desfalcado e improvisado, com Rogério Ceni, Fabão, Renan e Edcarlos na defesa. No meio, Souza, Mineiro, Hernanes, Danilo e Junior. Amoroso e Christian formaram a dupla de ataque. O Corinthians veio com Marcelo no gol, Eduardo, Sebá, Betão e Ronny na defesa, Rosinei, Marcelo Mattos e Roger no meio e Nilmar, Tevez e Jô no ataque. Os técnicos pareciam ter mais em comum do que gostariam. Autuori e Marcinho sofrem ultimamente criticas de suas respectivas torcidas por “inventar demais” e ambos precisavam vencer para provar que merecem os cargos que ocupam. E ambos contam com seus elencos, que tem dado apoio a ambos durante suas fases ruins.
A surpresa foi quase geral quando o Corinthians abriu o marcador aos dois minutos de jogo, numa bobeada da defesa que esperava um impedimento ser assinalado e simplesmente assistiu Nilmar dominar um belo passe e passar por Rogério Ceni com uma bela finalização. Não que o Corinthians não fosse o favorito, mas ninguém esperava que o placar fosse aberto com tamanha velocidade.
Incauto n.1, que assistia ao jogo comigo, se pronunciou com grande eloqüência, exclamando “O São Paulo vai levar um fumo!”.
Incauto n.2 acrescentou “Já virou merda!”.
Incauto n.3 (ou seja, EU) completou. “Agora, já era!”.
Éramos incautos, mas não sabíamos.
Como poderíamos, mesmo com tanta paixão pelo tricolor do Morumbi, imaginar que o São Paulo dominaria o primeiro tempo?
Não dava para saber que o São Paulo mostraria a garra e o empenho que havia demonstrado na libertadores e há muito não era visto e criaria as melhores chances de gol.
Muito menos prevíamos que, aos 28 minutos, Amoroso receberia pela esquerda, daria um chapéu no primeiro homem, passaria entre dois defensores, penetraria na área, driblaria um zagueiro e chutasse rasteiro, enganando Marcelo e fazendo, sem duvida, o gol mais bonito da rodada.
E o Corinthians? O time acabou se defendendo muito e explorando os erros do São Paulo (que não foram poucos). Parecia que o São Paulo estava sempre mais perto, mas o passe sempre saia curto, torto, mascado e sempre armando o contra-ataque corinthiano.
Dado o histórico dos últimos jogos, a pergunta na mente do torcedor são-paulino era exclusivamente sobre o elenco que retornaria dos vestiários. Mudanças esdrúxulas parecem ter virado rotina no Morumbi.
Não foi assim. O técnico mostrou confiança no time e deixou-o intacto e jogou como tal. Parecia ser uma questão de tempo até o São Paulo passar a frente. O Corinthians parecia gostar do resultado, mas ainda levava perigo. Mas não havia objetividade. O Corinthians não chegava ao gol e o São Paulo, quando chegava, não conseguia concluir. Souza perdeu dois gols incríveis.
Quando o gol saiu, dos pés do próprio Souza, o Morumbi só não veio abaixo porque a grande maioria dos torcedores presentes era do time rival. Mas os são-paulinos pareciam não se incomodar e fizeram a festa.
O jogo seguiu tenso. Souza saiu aplaudido para a entrada de Richarlyson.
O segundo gol Corinthiano, o do empate, saiu aos 40 minutos com um chute de Rosinei. E foi o maior exemplo de porque o São Paulo não deve jogar com só dois zagueiros. Rosinei entrou livre pelo lado direito da defesa depois de um belo toque de Roger e fuzilou Rogério.
Parecia que o jogo estava definido. Só não avisaram os jogadores do São Paulo. Em bela arrancada pela direita, o são-paulino foi derrubado na área e o juiz marcou o pênalti. E antes que me perguntem, eu direi: Foi pênalti sim! O juiz estava a cinco metros da jogada e dois defensores corintianos empurraram o jogador do São Paulo. Preveniram a finalização com excesso de contato, o que é falta, ponto final.
O capitão e goleiro são-paulino Rogério se aproximou da área e começou a conversar com Amoroso. Era dele a cobrança e a oportunidade de virar o clássico. Abdicou da honra em favor de Amoroso. Rogério não passa por boa fase em cobranças de bola parada, mas eu gostaria de pensar nisso como um ato cavalheiresco.
Amoroso cobrou com perfeição aos 43 minutos do segundo tempo e definiu o resultado. São Paulo 3, Corinthians 2. E, logo após, saiu substituído pelo volante Ale, mas consagrado como herói do jogo.
Assim, o São Paulo manteve o recorde de oito jogos sem perder para o Corinthians. Se algum dos técnicos cairá, acho que será no futuro. Ambos mostraram competência para ficar.
Após o primeiro tempo, o zagueiro corintiano Sebá saiu de campo reclamando que foi xingado pelo árbitro e depois do jogo confirmou com a imprensa, mas disse que não tomará uma atitude imediata nem revelou o que foi dito. Quem se incumbiu foi o meia Roger, que acabou fazendo feio e deixando o companheiro em posição ridícula ao dizer que “o Sebá chegou no vestiário quase chorando, dizendo que o juiz tinha chamado ele (sic) de ‘gringo de merda’”. Se for verdade, o juiz deve ser punido, Roger deveria ser disciplinado para aprender a não falar dos assuntos dos outros e o Sebá tem que crescer. Se for chorar por causa disso, não leia o próximo parágrafo.
Porque o Senhor Sebá foi, quase sem sombra de duvida, o pior em campo. Posicionou-se mal, foi lento, tocou mal e quase fez contra numa recuada equivocadíssima. Acorda, Sebá. Tu és ruim e pronto. Num linguajar mais chulo, você É um merda. Se a verdade dói, vai treinar que melhora.
-Rogério Ceni:
Não teve culpa nos dois gols que tomou. Saiu melhor do gol do que vinha fazendo e fez algumas boas defesas que garantiram o resultado. Bateu uma boa falta, mas não enganou o goleiro e depois cedeu a cobrança do pênalti a Amoroso. Bom jogo para o capitão tricolor. 6,0
-Fabão:
Fez algumas lambanças na defesa, quase complicando a vida do São Paulo em saídas erradas, toques tortos e escanteios cedidos infantilmente. Poderia ter sido melhor, mas não foi horrível. 4,5
-Renan:
Grudou em Carlito Tevez como um carrapato. Brigou atrás, saiu para armar como volante e só foi pego pelas costas na jogada do primeiro gol. Boa apresentação para um volante improvisado na zaga. 5,5
-Edcarlos:
Uma palavra: RIDICULO! Não tem espaço no time. Leva dribles infantis, parece não ter reação, não fecha ângulos nem se antecipa nos passes. Sobe com uma irresponsabilidade incrível. 3,0
-Hernanes:
Mostrou porque jogadores canhotos não devem jogar na lateral direita. Marcou bem, mas não conseguiu criar nada. Seus passes foram imprecisos, mas sua ajuda na defesa compensou. 5,0
-Mineiro:
Continua numa série de boas partidas e não parece querer quebrá-la no futuro próximo. Marca com afinco, apóia a defesa quando os alas sobem ao ataque, apóia o ataque quando necessário e chega com perigo com chutes fortíssimos. Ele é o coelho raiovac do time. Ele continua e não para e não para e não para. 6,5
-Souza:
Se ele jogou meio apagado no primeiro tempo, libertou-se no segundo. Subiu e desceu, driblou, tentou cabecear, chutou, se jogou, tentou e tentou. Até marcar. Ótimo em campo. 7,0
-Danilo:
Apossou-se do primeiro tempo. Estava envolvido em tudo e mostrou muita raça em ambos os lados do campo. Sumiu no segundo tempo, mas foi avistado de vez em quando e não estava fazendo feio. Boa partida. 6,5
-Júnior:
Também fez bela partida, mas jogou menos do que vínhamos vendo. Talvez porque não foi a única referencia do time. 6,0
-Amoroso:
Incansável e criativo, foi o herói. Seu primeiro gol entrou imediatamente para a lista de clipes que serão mostrados como grandes momentos de sua carreira. Assumiu a responsabilidade de fazer o tricolor produzir no ataque e foi espetacular. Recebeu um cartão amarelo logo no começo por reclamação. E essa foi a única macula na sua ficha hoje. 8,5
-Christian:
Se for visto, favor contatar sua família, que sente muita a sua falta e espera que ele se encontre com saúde. Brincadeiras a parte, para um jogador que veio ser uma referencia dentro da área, tem procurado a bola com a freqüência que Cascão procura o chuveiro. Parece sempre esperar que ela caia aos seus pés ou ache sua cabeça. Fez duas finalizações perigosas hoje, mas tem que mostrar que tem fome de permanecer titular no São Paulo. 4,0
-Diego Tardelli:
Já aviso: ainda não acho que deva ser titular. Mas que ele entrou batendo um bolão, isso ele entrou. Driblou, passou, definiu e segurou a bola com uma destreza que parecia ter sido esquecida no campeonato paulista. Só não marcou. 6,0
-Richarlyson:
Jogou pouco. Sem nota.
-Alê:
Jogou menos. Sem nota.
-Paulo Autuori:
Parece ter entendido uma máxima antiga do futebol, finalmente: Não se meche em time que está ganhando. Fez alterações para solidificar o time, não para mudar por mudar. Compôs um elenco eficiente apesar de desfalques de grande calão. Redimiu-se, com grande ajuda do elenco que cativou, e da torcida, que deu crédito. 6,0
Na entrevista coletiva o jogador Souza dedicou a vitória a Autuori, dando voz a um suporte do time que, apesar de não expresso até o momento, se tornou quase palpável. O time acredita que ele será o técnico que os levará a mais uma vitória no mundial e, talvez, seja isso que salve o São Paulo no campeonato brasileiro.
Já o técnico passou o crédito para a torcida e tenho que dizer que concordo. Ele não inventou, o time jogou feijão-com-arroz e a torcida apoiou. Alias, nunca deixou de apoiar e mesmo em jogos que o São Paulo foi mau ou sem um grande público, não desferiu ofensas ao técnico ou aos titulares e mostrou uma paciência de Jô. Mas que o técnico fique atento. A vitória de hoje só estendeu sua linha de crédito com a torcida. Em dezembro, é hora da cobrança. Cobrança essa que pode ser antecipada caso o São Paulo volte a tropeçar repetidamente e cair na tabela do Brasileirão.
Dando uma pequena atualizada na situação de alguns jogadores que não jogaram hoje, Cicinho, Lugano e Josué retornam para o próximo jogo com o Curitiba, em Curitiba, depois de servir a suas suspensões. O único que não retorna é o zagueiro Alex, que foi julgado hoje pelo STJD pelo cartão recebido no jogo contra o Atlético Paranaense. Na época eu já havia dito e repito hoje: o lance em questão não foi nem para cartão. Foi uma dividida dura, mas legal, igual a diversas que eu já vi. Houve um lance quase igual no jogo de hoje que não recebeu nem advertência do arbitro. Ou seja, na minha opinião, o STJD errou e errou feio. So fuck’em.
Pelo Corinthians, o jogador Masquerano continua parado com uma contusão por mais três semanas.